Coisas de criança

25/03/2017 07:49

Eu já vi muitas pessoas alegarem que todo o ser humano nasce ateu, mas pesquisando sobre esse assunto eu cheguei a uma conclusão: ninguém nasce ateu... E nem religioso, claro. Isso mesmo, a descrença ou a crença não são características naturais de uma criança, pois isso só pode se desenvolver depois de alguns anos. E por qual motivo alego isso? 

A criança antes dos 2 anos está um estado que poderíamos chamar de ignorância, no sentido de ausência de conhecimento, nesse caso é impossível afirmarmos que uma criança nasce crendo ou não crendo considerando que ela sequer tem essas noções.
Antes dos 2 anos, a criança não tem noção exata de quem ela é. Por isso, se olha no espelho e não se identifica na própria imagem. Não sabe que é ela mesma que está vendo. Aos 2 anos essa diferenciação já acontece e ela consegue “controlar” a imagem no espelho.
Nesta fase a criança possui apenas o raciocínio concreto, o abstrato ainda não está formado. Exatamente por isso, que os pais devem cuidar da linguagem que usam. Se você diz “Preciso voar daqui, agora!” ela entende literalmente o que você diz. Não há pensamento lógico nessa fase.

Alguns estudos, ainda, demonstram que as crianças, em um modo básico de desenvolvimento, possuem uma tendência instintiva para atribuir um propósito de existência a objetos e animais (Kelemen, 1999).
Somos produto de uma história evolutiva, que tem influência genética, social e cultural. Isso significa que estamos programados para "crer". O nosso cérebro tem uma tendência de dar um sentido para tudo – rejeitamos o nada.
Isso explica o fato de explicações mais simples são mais fáceis de serem aceitas – é mais fácil atribuir as coisas a um criador do que estudar cientificamente as relações causais, que possam gerar um determinado fenômeno. O ser humano está programado para crer, contudo, isso não quer dizer que estamos programados para crer no Deus Bíblico, Cristão, Hinduísta, ou seja, qual for, pois as religiões são criações humanas.
Obviamente esses estudos não são inteiramente exatos, carecem de mais alicerce dos meios científicos em geral para considerarmos como algo incontroverso, mas não podemos negar que existe uma grande possibilidade de ser válido.
Mas isso é uma prova de que deus existe? Definitivamente não! Muito pelo contrário, essa proposição apenas confirma que nossa inclinação para o teísmo é uma forma infantil de encararmos o mundo.
Já ouvi muitas pessoas afirmarem que uma criança acredita em qualquer coisa dita a ela. Isso acontece porque a criança é ingênua, ela ainda não desenvolveu um nível de raciocínio para conseguir discernir o que é lógico e o que é fantasioso, quando uma criança vê um tigre em um zoológico ela vai achar que todos os tigres vivem em zoológicos.

Pretendo explanar esse assunto com um exemplo prático:

Na crença da Grécia antiga Zeus era o deus e “senhor dos raios”. Não precisamos nos esforçar muito para imaginar que essa atribuição divina aos raios veio da falta de conhecimento científico sobre o assunto, hoje sabemos que o raio é um fenômeno é causado por uma descarga elétrica entre duas nuvens, mas os antigos gregos não sabiam disso. Tente imaginar essa cena: pessoas desprovidas de conhecimento científico observam no céu um trajeto extremamente luminoso que percorre longas distâncias, às vezes com ramificações. Sem uma explicação para esse fenômeno a tendência é considerá-lo como algo sobrenatural, algo que não conhecemos, além da concepção humana... Um deus? Exatamente:
Na antiguidade, acreditava-se que os raios eram castigos enviados por deuses furiosos e somente no século XVIII o fenômeno foi cientificamente explicado por Benjamin Franklin.

Isso é o que muitos chamam de “deus das lacunas”, quando você não consegue explicar algum fenômeno atribui a deus, mas depois de algum tempo esse mesmo fenômeno pode ser explicado e aí concluímos que na verdade não é deus.
Nós somos seres racionais, mas somos frutos de uma evolução, talvez ainda devam existir dentro de nós resquícios de nossos ancestrais e não podemos compreender até que ponto isso afeta nossa evolução de raciocínio, é uma hipótese que eu particularmente considero plausível. 
Naturalmente nascemos com a tendência de buscar explicação para as coisas, mas quando não conseguimos essas explicações a saída mais confortável é atribuir a um ser superior, sobrenatural e criador.
O fato é que existem fenômenos naturais que só podemos compreender quando estudamos sobre eles. Quando buscamos o conhecimento a nossa inteligência se desenvolve, e esse desenvolvimento é que nos torna amadurecidos de verdade. O corpo cresce naturalmente, mas a mente precisa ser exercitada e estimulada corretamente, do contrário viveremos na ingenuidade como uma criança.

Rafael Marques Elias 24/02/2015