Os 7 erros do evangelho de João - Jesus e mulher samaritana

03/03/2017 14:58

O pesquisador Sha’ul Bentsion já esteve em Israel, onde entrevistou Benyamim Sedaka, que é não apenas o principal acadêmico da comunidade samaritana, autor de vários livros sobre os samaritanos que são utilizados em universidades, tradutor da Torah Samaritana, e responsável por todos os artigos sobre o Samaritanismo na Encyclopedia Judaica.

Sha'ul observou que há vários erros – não sutis, mas erros bastante básicos – na história da mulher samaritana narrada no evangelho de João, que aqui gostaria de compartilhar. 

O texto neo-testamentário que relata o encontro de Jesus/Yeshua com a mulher samaritana se encontra em João 4:3-42. É interessante que o leitor faça a leitura dessa narrativa antes de continuar neste artigo.

E quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João
(Ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos),
Deixou a Judéia, e foi outra vez para a Galiléia.
E era-lhe necessário passar por Samaria.
Foi, pois, a uma cidade de Samaria, chamada Sicar, junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José.
E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta.
Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.
Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida.
Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos).
Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.
Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?
Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede;
Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.
Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, e não venha aqui tirá-la.
Disse-lhe Jesus: Vai, chama o teu marido, e vem cá.
A mulher respondeu, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido;
Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.
Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.
Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.
Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus.
Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.
Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo.
Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo.
E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela?
Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens:
Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?
Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele.
E entretanto os seus discípulos lhe rogaram, dizendo: Rabi, come.
Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis.
Então os discípulos diziam uns aos outros: Trouxe-lhe, porventura, alguém algo de comer?
Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: Levantai os vossos olhos, e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.
E o que ceifa recebe galardão, e ajunta fruto para a vida eterna; para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.
Porque nisto é verdadeiro o ditado, que um é o que semeia, e outro o que ceifa.
Eu vos enviei a ceifar onde vós não trabalhastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.
E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito.
Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles; e ficou ali dois dias.
E muitos mais creram nele, por causa da sua palavra.
E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:1-42

Primeiro Erro: Crenças Básicas

“Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.” (João 4:19)

Aqui ocorre o primeiro erro. Os samaritanos não crêem que existam profetas ao longo das gerações. Os quatro pilares da fé samaritana, cujas origens são datadas no mínimo da época do Segundo Templo, são descritos abaixo, em documento da A. B. Institute of Samaritan Studies:

“1. Um Elohim, que é o Elohim de Israel

2. Um Profeta, Moshe Ben Amram

3. Um Livro Sagrado, o Pentateuco: a Torah entregue por Moshe

Um Lugar Sagrado: o monte Guerizim

A estes é adicionada a crença no Taheb filho de José (O Retornador, O Restaurador, um profeta como Moisés) que aparecerá no Dia da Vingança e Recompensa nos últimos dias.” (Who are the Israelite Samaritans)

A mulher samaritana precisaria ser ignorante quanto à sua própria tradição para chamar Jesus/Yeshua de profeta, uma vez que os samaritanos só reconhecem um profeta, Moshe (Moisés), e aguardam outro, denominado na tradição samaritana de Taheb.

Pela tradição samaritana, o Taheb, o restaurador, será um líder seja de Efrayim ou Menashe que irá guiar Israel como nos tempos de Moshe. Porém, em sendo judeu, Jesus/Yeshua jamais preencheria o requisito básico para ser o Taheb.

Segundo Erro: A Importância do Monte Guerizim

“Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar. Disse-lhe Jesus: Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. O Eterno(*) é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4:20-24 – (*) termo pagão substituído)

Há mais um erro grave também aqui neste trecho.

Pode parecer tentadora a ideia de que Jesus/Yeshua teria corrigido a mulher, afirmando que tempos viriam em que o Eterno seria adorado não em lugar algum, mas “em espírito e em verdade”.

Para os que crêem no Tanach, a frase acima já é uma contradição, uma vez que o Tanach fala abundantemente da centralidade de Yerushalayim (Jerusalém) como local de adoração para os tempos vindouros. Por exemplo:

“E irão muitas nações, e dirão: Vinde, e subamos ao monte de YHWH, e casa do Elohim de Ya’akov, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de sairá a Torah, e de Yerushalayim a palavra de YHWH.” (Michah/Miquéias 4:2)

“Exulta, e alegra-te ó filha de Tsiyon, porque eis que venho, e habitarei no meio de ti, diz YHWH. E naquele dia muitas nações se ajuntarão a YHWH, e serão o meu povo, e habitarei no meio de ti e saberás que YHWH Tseva’ot me enviou a ti. Então YHWH herdará a Yehudah como sua porção na terra santa, e ainda escolherá a Yerushalayim. Cala-te, toda a carne, diante de YHWH, porque ele se levantou da sua santa morada.” (Zechariyah/Zacarias 2:10-13)

Para contornar passagens tais como as acima, e muitas outras, é comum que o Cristianismo as espiritualize, uma vez que se tratam de profecias.

Porém, para o caso do monte Guerizim e sua relação com os samaritanos, a espiritualização não seria uma saída possível.

Porque, diferentemente do que ocorre para nós judeus, a ideia da centralidade do monte Guerizim para os samaritanos não é profética.

Para os samaritanos, o lugar de adoração faz parte dos Asseret haDibrot (Dez Mandamentos) na sua versão da Torah. Na Torah samaritana, o não cobiçar a mulher do próximo e os seus pertences aparecem como um único mandamento. E o décimo mandamento aparece da seguinte forma:

“E será que quando o vosso Elohim vos trouxer à terra de Kena’an, que ireis herdar, vós vos erguereis grandes pedras, e as cobrirão com reboco, e escreverão nelas todas as palavras desta Torah. E será que, quando passares pelo Yarden, colocareis estas pedras, que Eu hoje vos ordeno, no monte Guerizim.” (Torah Samaritana – Asseret haDibrot)

Esta é a principal diferença textual entre a Torah Samaritana e a Torah Judaica.

Vale ressaltar que a questão aqui não é entrarmos no mérito de se o texto original é o judaico ou o samaritano, mas sim de analisar o impacto das palavras de Jesus/Yeshua sobre a mulher samaritana. Espiritualizar as profecias sobre Yerushalayim (Jerusalém) é uma coisa. Espiritualizar um dos Dez Mandamentos é outra! Um samaritano jamais aceitaria o argumento de Jesus/Yeshua, coisa que a mulher aceita de bom grado

IV – Terceiro Erro: Relação com a Dinastia Davídica

Ainda acerca da passagem supracitada, há um terceiro erro: os samaritanos culpavam (e culpam) abertamente a dinastia davídica por ter mudado o local de adoração, e afirmam que os samaritanos nunca aceitaram a autoridade da dinastia davídica. Sobre isso, Sedaka escreve:

“A tribo de Yossef não se submetida ao governo de David e Salomão. Eles se rebelaram contra a Casa de David na primeira oportunidade, quando Salomão morreu. A tribo de Yossef conduziu as tribos do norte para formarem o Reino de Israel. As relações entre os Reinos de Israel e Judá não eram fáceis.” (Israelite Samaritan History)

Ou seja, um samaritano teria muito pouca simpatia, para dizer o mínimo, de ouvir um judeu, quem dirá um suposto descendente davídico, discorrer sobre uma nova alteração no lugar de adoração, ou mesmo sobre um livramento vir dos judeus, visto que os samaritanos culpavam a tribo de Yehudah por boa parte dos infortúnios do povo de Israel. Supor que a mulher, e muitos outros após ela, ouviria(m) essa retórica e se maravilhariam demonstra a ingenuidade do autor do relato sobre os conflitos político-religiosos da região.

Quarto Erro: Relação com a Dinastia Davídica

“A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo. Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo. E nisto vieram os seus discípulos, e maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela? Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?” (João 4:25-29)

O quarto erro, igualmente grave, está nas palavras da mulher samaritana, que afirma saber que o Messias restauraria todas as coisas.

Samaritanos não crêem na vinda de um Mashiach! Salvo, evidentemente, se dissociarmos a ideia de “Mashiach” do conceito encontrado no Tanach, e atribuirmos a palavra um novo conceito.

Alguns teólogos tentam contornar essa falha evidente com uma comparação entre o conceito do Taheb, e o conceito judaico de Melech haMashiach, o descendente davídico que apareceria no fim dos tempos, pois de fato há semelhanças entre os dois. Porém, essa comparação é extremamente falha. Não a toa, em entrevista a nós, Sedaka nos informou Sedaka, a crença numa figura messiânica é exclusivamente judaica.

Afinal, o Taheb é um profeta de Efrayim, que centralizará as tribos de Israel entre ele, retornando Israel a um estado funcional semelhante ao dos tempos de Moshe (Moisés).

Atribuir à mulher samaritana uma expectativa que é judaica é um erro de contexto sociológico bastante grande. Mesmo que fôssemos supor que a mulher samaritana se referisse ao Taheb, Jesus/Yeshua não cumpriria seus requisitos mais básicos, e certamente a mulher samaritana sabia disso.

Quinto Erro: Distinção entre Profeta e Taheb

Mesmo se ignorássemos o quarto erro, haveria ainda um quinto, na mesma passagem, se for feita a associação que deseja e o evangelista entre o Taheb samaritano e o Mashiach judeu, mesmo sendo conceitos completamente diferentes.

O erro ocorreria porque no verso 19, a mulher afirma que Jesus/Yeshua era um profeta. Já no 29, afirma que ele seria essa figura messiânica.

Todavia, na teologia samaritana não haveria diferenciação entre o ser um profeta e ser o Taheb. O único profeta esperado pelo Samaritanismo é exatamente o Taheb. Não há outro, e portanto não haveria porque a mulher se surpreender no 29, se já havia percebido no 19 que Jesus/Yeshua era supostamente um profeta.

E, como afirmado no item II, Jesus/Yeshua não cumpriria os requisitos samaritanos para ser o Taheb, assim como também não cumpre as profecias messiânicas do Tanach.

Sexto Erro: Pretensão Excessiva

“E muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho feito. Indo, pois, ter com ele os samaritanos, rogaram-lhe que ficasse com eles; e ficou ali dois dias.” (João 4:39-40)

O autor do evangelho de João peca aqui, num sexto erro, por ter pretensões excessivas. Se tivesse limitado seu relato à mulher, seria talvez possível alegar ignorância ou mesmo uma profunda judaização da samaritana, mesmo que improvável, dada a insistência a ela atribuída pela mesma narrativa na diferenciação entre judeus e samaritanos. Porém, o autor passa à tese deveras ambiciosa de que muitos samaritanos teriam crido nele.

Ora, caro leitor, observe a proposta: Samaritanos, cuja rivalidade com os judeus era enorme, jamais creram em qualquer um dos profetas judeus, mesmo com todas as profecias precisas sobre o Reino do Norte, e que não aceitavam nem acreditavam em judeus operadores de milagres e/ou adivinhações (tanto o NT quanto Josefo afirma que tais pessoas existiam), e que não só não criam na existência de uma figura messiânica, como ainda por cima rejeitavam frontalmente a dinastia davídica, que era por eles considerada a principal responsável pela mudança do local sagrado de culto.

Esses mesmos samaritanos aceitariam um judeu, suposto descendente de David, como seu messias, abdicando completamente de suas crenças e aceitando desprezar um dos Dez Ditos (ou “Dez Mandamentos”) de sua Torah, simplesmente porque ele adivinhou que a mulher não era casada, ou porque trouxe mensagens com belas palavras? Vale ressaltar que o próprio Tanach, seja nos profetas, nos salmos, ou nos provérbios, possui palavras bem mais belas do que as relatadas no referido evangelho.

Para que o leitor tenha ideia do tamanho do empreendimento, seria como se um bispo católico convencesse muitos pentecostais de que ele é o líder a ser seguido, e ao mesmo tempo os convencesse a abdicar de suas crenças e adotar o catolicismo.

Para que isso ocorresse, seria necessário um milagre sobrenatural tamanho que certamente mereceria grande destaque na narrativa evangelística, e não poderia ser atribuído unicamente a uma argumentação intelectual, como o evangelho faz.

A única forma de imaginar que isso seja possível seria apelar para o argumento a partir da ausência. Isto é, imaginar que os principais argumentos de Jesus/Yeshua, ou o grande milagre do convencimento sobrenatural, estão de alguma forma ausentes do relato de João.

Considerando, porém, o que isso representaria para um judeu do primeiro século, ou mesmo as possíveis implicações proféticas de algum tipo de acordo entre Yehudah (Judá) e e Efrayim (Efraim), já seria muito estranho que a isso não se dedicasse páginas e páginas.

Em suma, seria preciso alimentar uma grande criatividade a partir de um enorme desejo de querer justificar o texto para minimizar tal ausência.

Sétimo Erro: O Salvador do Mundo

“E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.” (João 4:42)

O sétimo e último erro está na ideia de um salvador do mundo. Essa ideia já seria bastante incomum no Judaísmo, uma vez que o conceito de salvação no Tanach não está associado ao perdão dos pecados, nem a algum tipo de transformação espiritual, mas sim ao livramento do perigo. O conceito de uma salvação espiritual é gnóstico em sua origem, e parte da ideia, derivada do dualismo platônico, de que o corpo mortal é uma prisão para o espírito.

Na ausência dos escritos proféticos, a escatologia samaritana é ainda mais simples. Segundo Sedaka, os samaritanos não acreditam sequer numa batalha apocalíptica. Os samaritanos crêem que os espíritos daqueles que morrem vão para o mundo dos espíritos e que aqueles que viveram uma vida reta serão ressuscitados no fim dos tempos, enquanto os que não são retos simplesmente não ressuscitarão.

A crença samaritana também pode ser vista no Malef, importante tratado teológico samaritano da Idade Média:

“No Dia da Vingança quando ele diz, ‘Agora vede…’ tudo que foi apontado será revertido para o que era quando foi criado pela primeira vez a partir do nada. E voltará novamente uma segunda vez do nada, após se tornar pó. Em um momento, retornará à condição anterior no mundo e todos os mortos se levantarão do pó vivos; e verão a glória do Eterno, em Sua glória, e ouvirão Sua grande voz.” (Malef – sobre a ressurreição)

De fato, considerando que os samaritanos utilizam unicamente a Torah e suas tradições como fonte teológica, seria estranho que uma ideia que sequer é judaica em sua origem fosse por eles compartilhada.

Em outras palavras, se já não havia espaço na teologia samaritana para um messias davídico, muito menos ainda há para a figura de um salvador da humanidade.

Conclusão

Como se pode perceber, o relato da suposta conversão da mulher samaritana no evangelho de João é desastrosamente equivocado, e indica que o conhecimento do autor sobre a comunidade samaritana ou a sua fé se restringia a um saber extremamente superficial sobre a rivalidade entre o monte Moriá e o monte Guerizim como local de culto.

Certamente que tal narrativa não poderia ser obra de um judeu do primeiro século que tenha tido algum contato com a comunidade samaritana. E ninguém melhor do que os próprios samaritanos para esclarecerem a verdade dos fatos sobre sua história e crenças.

Agradecimentos ao A. B. Institute of Samaritan Studies, pela fonte das informações aqui utilizadas (à exceção do texto do Malef)