Os primeiros cristãos foram realmente perseguidos?

01/04/2017 08:07

Grande parte da seção central de “O Mito da Perseguição” é retomada com uma leitura atenta dos seis “chamados relatos autênticos” de primeiros mártires da Igreja. Eles incluem Policarpo, bispo de Esmirna durante o segundo século que foi queimado na fogueira, e Santa Perpétua, uma jovem mãe bem-nascida executada na arena de Cartago com sua escrava, Felicidade, no início do terceiro século. A professora Candida Moss cuidadosamente aponta as inconsistências entre esses contos e o que sabemos sobre a sociedade romana, as escavações em heresias que sequer existiam quando os mártires foram mortos e as referências às tradições de martírio que ainda tinham que ser estabelecidas. Há certamente algum fundo de verdade nessas histórias, ela explica, bem como a primeira história substantiva da igreja escrita em 311 por um palestino chamado Eusébio. É que é impossível classificar a verdade a partir de invenções coloridas, golpes de machado e tentativas para reforçar as ortodoxias de uma era posterior.

Moss também examina registros romanos sobreviventes. Ela observa que durante a única campanha concertada anti-cristã romana, sob o imperador Diocleciano entre 303 e 306, os cristãos foram expulsos de cargos públicos. Suas igrejas, como a de Nicomédia, em frente ao palácio imperial, foram destruídas. No entanto, conforme aponta Moss, se os cristãos mantinham altos cargos em primeiro lugar e haviam construído sua igreja “no próprio jardim do imperador”, eles não poderiam ter estado escondidos em catacumbas antes que Diocleciano emitisse seus editos contra eles.

Os cristãos acabaram nos tribunais romanos para qualquer número de razões, mas quando chegavam lá, eles estavam propensos a anunciar, conforme um crente chamado Libério fez uma vez, “que ele não pode ser respeitoso ao imperador, que ele pode ser respeitoso apenas a Cristo”. Moss compara isso aos “réus modernos que dizem que não reconhecerão a autoridade do tribunal ou do governo, mas reconhecem apenas a autoridade de Deus. Para os americanos modernos, assim como para os antigos romanos, isso soa sinistro ou vagamente insano. ” E em nada ajudou que os primeiros cristãos desenvolvessem uma paixão pelo martírio. Sofrimento demonstrava tanto a piedade do mártir quanto a autenticidade da própria religião e, além disso, ela lhe proporcionava um assento de primeira classe no no céu. (Os cristãos comuns tinham que esperar o Dia do Julgamento Final.) Houve relatos de fanáticos deliberadamente buscando a oportunidade de morrer por sua fé, incluindo uma multidão que apareceu na porta de um oficial romano na Ásia Menor, exigindo ser martirizada, para ser afastada só quando ele não se importou em satisfazê-los.

E o mundo ocidental quase foi judeu!

Quase ninguém sabe disso e menos ainda sobre as causas desse desconhecimento. No primeiro século da era comum, a guerra romano-judaica de 66-70/3 espalhou muitos judeus pelas cidades gregas do Mediterrâneo. O antigo hábito judaico de viver apartado dos demais era interpretado e respondido com rejeição. Em especial pelas classes médias gregas. O desprezo indisfarçável dos judeus pelos cultos helênicos punha mais lenha naquela fogueira. Sob Augusto, as cidades da Jônia, na Ásia Menor, quiseram expulsar os judeus porque eles não queriam abandonar seus ritos.

Outro aspecto negativo que envolvia os recém-chegados judeus às cidades mediterrâneas, era o receio de que eles pudessem se tornar grandes rivais no comércio. Além do que aquela gente proliferava em demasia e havia desenvolvido a praxe da propaganda religiosa, o que também trazia preocupação. As leis romanas do tempo de Júlio César, ampliadas pelo sucessor Otávio Augusto, protegiam o judaísmo e os judeus se aproveitavam disso.

Os judeus não podiam ser expulsos das localidades onde estivessem legalmente estabelecidos. A não ser por uma circunstância especial e por ordem do imperador, que por sua vez tinha que cumprir o compromisso assumido pelo Estado romano de proteger o judaísmo. Assim ocorreu no caso de Tibério, em relação a Roma: Trajano, em relação a Chipre e Adriano, em relação a Jerusalém.

A Enciclopédia Judaica acrescenta que desta forma o judaísmo fez inúmeros convertidos em dois ou três séculos. Portanto, o primeiro, o segundo e terceiro séculos da era comum, só para lembrar. Conta também que em Antióquia, na Síria, grande parte da população judaica era composta de gregos convertidos.

“O enorme crescimento da nação judaica no Egito, Chipre e Cirene não pode ser contabilizado sem supor uma infusão abundante de sangue gentio. Influência do proselitismo tanto nas classes altas quanto nas classes baixas da sociedade. O grande número de judeus que passaram pelo estado de escravidão deve naturalmente ter convencido seus companheiros ao invés dos seus senhores”. [...] (Enciclopédia Judaica)

Essa situação que não atingia somente os gregos, mas todo o povo do mundo antigo começou a preocupar as autoridades romanas. Mesmo cumprindo escrupulosamente o compromisso de garantir a liberdade dos costumes nacionais judaicos, os romanos se viram na obrigação de promulgar medidas coercitivas a esse boom provocado pelo proselitismo judaico. Nada disso fazia parte do antigo acordo mantido pelo Estado romano.

Prosélitos circuncidados passaram a ser considerados traidores da pátria, passivos de confisco, exílio ou pena de morte. A situação esteve tão grave que Adriano (117-138) proibiu a circuncisão em todo império, inclusive aos judeus. O fato teria provocado à revolta judaica de 132. Seu sucessor, Antonino Pio (138-161), abrandou as medidas antijudaicas de Adriano mantendo a proibição somente para não judeus. Todavia, podendo conversor e convertido sofrer a pena de morte.

A versão oficial da história do cristianismo é apresentada como parte da doutrina cristã. Esses fatos deram continuidade ao antigo ódio grego pelos judeus de forma originalmente cruel, mas por uma necessidade estratégica. O amor ao próximo devia ter saído de férias quando se serviram da ideia de um Deus de amor e caridade para professar uma obstinada desumanidade que se dizia portadora da palavra revelada.

“As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não judaicas e as antijudaicas” (STAUFFER cit. por LÄPPLE, 1973, p. 84)

O cristianismo não surgiu de uma ação, mas de uma reação. Isto preenche muitas lacunas aparentemente contraditórias com o seu elevado propósito religioso. Cenários são produzidos para causar ilusão e envolvimento ao sabor de uma satisfação estética gratificante. Porém, nunca são bonitos vistos da coxia. São lógicos na estrutura e amarração, mas bastante rudes na aparência.

É grande o público de uma peça de sucesso em cartaz que está no final da temporada.

Cristianismo: a origem do anti-semitismo.

Desde que o imperador Constantino I, O Grande, se converteu, como política estratégica, ao Cristianismo no ano de 324 d.e.c., os judeus passaram a ser perseguidos. 
A partir disto, foi declarado herético estudar a Torá, e os judeus passaram a ser considerados assassinos de Jesus de Nazaré e inimigo do Criador, e ao mesmo tempo, Constantino I permitia o culto ao Deus Sol dentro da igreja romana. 

Todo aquele que fosse contrário ao Cristianismo deveria ser morto, pois era um traidor. Assim, os judeus, por se recusarem a participar das cerimônias cristãs e de tomar parte no culto ao Deus Sol foram mortalmente perseguidos. 

Em relação aos Pais da Igreja, exporemos algumas de suas posições e declarações anti-semíticas que perduram até hoje. 

João Chrysostomos (347-407), Bispo de Antioquia, afirmava que as sinagogas eram zonas de meretrício e teatro, cheias de ladrões e bestas selvagens, que os judeus eram culpados da morte de Iehoshua de Nazaré, que não havia expiação para o povo judeu, que o Criador sempre os odiou que os cristãos deveriam odiá-los porque eles foram assassinos de Iehoshua de Nazaré e são adoradores de satanás.

Santo Hilário de Poitiers (316-367), afirmava que os judeus eram um povo perverso, amaldiçoado pelo Criador.

Santo Ephraem (306-373), referia-se as sinagogas dos judeus como prostíbulos.

São Cirilo de Alexandria (376-444), deu aos judeus a escolha de exílio, apedrejamento ou a conversão.

São Jerome (340-420), o tradutor da Bíblia para o latim (a Vulgata), afirmava que os judeus não eram capazes de compreender as Escrituras Hebraicas e deveriam ser perseguidos severamente e obrigados a confessar a verdadeira fé.

Aurélio Agostinho (354-430), afirmava que os judeus e a nação de Israel são apenas testemunhas da verdade do Cristianismo e que serviram apenas para deixar o legado da fé e da verdade cristã. Mas, agora deveriam estar em constante humilhação quanto ao triunfo da igreja sobre a sinagoga, que não há salvação para os judeus, que eles já estão perdidos de qualquer forma, que o Judaísmo é uma corrupção e os judeus devem ser escravizados. 

São Tomás de Aquino (1225-1274), compartilhava do perverso pensamento de Aurélio Agostinho.

Martin Luther (1483-1546), afirmava que os cristãos deveriam queimar as sinagogas dos judeus juntamente com eles dentro, que os seus livros sagrados deveriam ser queimados, pois contêm mentiras e blasfêmias. Afirmava também que se deveria ameaçar de morte os rabinos que ensinassem a Torá, que os judeus fossem proibidos de viajar, obrigados a trabalhar em serviço manual e que não adquirissem profissão alguma. Além disto, afirmava que os judeus eram arrogantes, teimosos e de coração de ferro como demônios. Lutero, em particular, através de seus vis manifestos escritos, colaborou mais do que a igreja romana para que o Holocausto pudesse existir. 

Segui-se agora uma amostra de seus manifestos.

"Que faremos, nós cristãos, com este povo rejeitado e condenado, os judeus? Vou dar-lhes o meu conselho sincero: primeiro, atear fogo às suas sinagogas, em honra ao nosso Senhor e à cristandade, de modo que Deus veja que somos cristãos. Aconselho que as suas casas sejam arrasadas e destruídas. Aconselho que os seus livros de orações e escritos talmúdicos lhes sejam arrebatados. Aconselho que seus rabinos sejam proibidos de ensinar, sob pena de perderem a vida e serem mutilados. Acreditamos que o nosso Senhor Jesus Cristo dizia a verdade ao falar sobre os judeus que não O aceitaram e O crucificaram: Sois uma raça de víboras e filhos do demônio. Li e ouvi muitas histórias relativas aos judeus que estão de acordo com este juízo do Cristo. Isto é, que envenenaram poços, assassinaram, seqüestraram crianças. Ouvi dizer que um judeu mandou a outro judeu por intermédio de um cristão, um recipiente cheio de sangue, juntamente com um barril de vinho no qual depois de bebido até o fim, encontrou-se um cadáver de um judeu." 

Martin Luther - On the Jews and Their Lies, Translated by Martin H. Bertran, Fortress Press - Philadelphia (1955)

Fontes:

> Candida Moss “, “O Mito da Perseguição: Como primeiros cristãos inventaram uma história de martírio “

> Ivani de Araujo Medina

> Federação Israelita Sefarad B’nei Anussim