Paralelo entre a deusa egípcia Ísis e a Virgem Maria

02/03/2017 09:08

Apesar de ser uma das divindades mais importantes e mais conhecidas no Egito antigo desde por volta da V dinastia (2479 a 2322 a.C., aproximadamente), a deusa Ísis não foi titular de nenhum templo no país dos faraós pelo menos até o século IV a.C. Ela somente era venerada nos templos onde havia culto para Osíris e Hórus, seu esposo e filho, respectivamente. Entretanto, no período posterior à chegada de Alexandre Magno ao Egito, em 332 a.C., o culto de Ísis se expandiu de tal forma que ultrapassou as fronteiras egípcias chegando a diversas regiões no entorno do mar Mediterrâneo e influenciou cultos posteriores, como é o caso do próprio cristianismo, na figura da Virgem Maria.

Representando a encarnação de todos os aspectos femininos – filha, irmã, esposa dedicada, mãe zelosa, sacerdotisa, rainha, maga, grande deusa-mãe, rainha dos deuses e do universo – Ísis era apreciada, venerada e extremamente popular em todo o mundo greco-romano e também no mundo pós-romano. A partir do reinado do faraó Nectanebo I (por volta de 378-361 a.C.) começaram a surgir os primeiros santuários dedicados a Ísis, dos quais destaca-se o templo da ilha de Filae, no Alto Egito, onde a deusa foi cultuada até mesmo após a proibição dos cultos pagãos, promulgada pelo imperador romano Justiniano em 535 d.C., quando o Egito abraçou o cristianismo majoritariamente.

Seu culto, simples e de fácil entendimento, apresentava-a como protótipo da maternidade e enfatizava a contribuição de Ísis para o esforço de civilizar a humanidade, visto que a deusa teria sido a responsável por ensinar os homens a viverem em família, a moer o trigo e fazer o pão. Também ministrara ensinamentos aos homens para que estes aprendessem as técnicas da tecelagem e era responsável pela elaboração de encantamentos que levavam à cura de quaisquer padecimentos. Em muitas de suas estátuas, Ísis aparecia amamentando o pequeno Hórus, que se sentava em seu colo, daí seu papel de protetora das crianças. Por causa de todos estes atributos, os gregos identificaram Ísis com suas deusas Deméter, Hera e Afrodite.

Na época ptolomaica, a rainha Arsinoe II, irmã e esposa do faraó Ptolomeu II Filadelfo (285-246 a.C.), foi identificada, após sua morte, como a reencarnação da deusa Ísis. Entretanto o caso mais famoso, dentro da mesma dinastia, foi o da assimilação de Ísis pela rainha Cleópatra VII (51-30 a.C.). Quando, em 47 a.C., nasceu seu filho Cesário, de sua união com o general romano Júlio César, a rainha mandou cunhar moedas em que aparece representada qual Ísis, segurando seu filho Hórus-Cesário. Em outra oportunidade, em 34 a.C., comemorando o triunfo de seu amante, o também general romano Marco Antônio, na cidade de Alexandria sobre os armênios, Cleópatra identificou-se como a “nova Ísis” e persuadiu Marco Antônio de que ele encarnava o “novo Osíris”, desta forma poderiam reivindicar a herança do casal divino original, ou seja, o próprio trono do Egito.

Já sob o domínio do Império Romano o culto de Ísis difundiu-se pelas mais variadas regiões próximas ao mar Mediterrâneo. Existiram templos em honra à deusa até mesmo na península Ibérica. Neles havia um corpo sacerdotal próprio que organizava os chamados “mistérios de Ísis”, cerimônias secretas das quais somente participavam os iniciados. Além disso, grandiosas festividades eram realizadas para cultuar a deusa, como procissões acompanhadas de abundantes oferendas de leite e água e que contavam com fervorosa adesão popular.

As influências do culto de Ísis ao longo da história do Império Romano foram mais profundas do que normalmente imaginamos. Em particular no modo como os primeiros cristãos se apropriaram da iconografia da deusa para representar a Virgem Maria. A veneração da mãe de Jesus recebeu um forte impulso quando a partir de 312 d.C., pelo ato de tolerância promulgado pelo imperador Constantino, o cristianismo se converteu, pouco a pouco, em religião imperial, com a conseqüente conversão das massas pagãs do Império. Esta gente acostumada a milênios de culto à Grande Mãe, à deusa, etc. não podia aceitar sem mais o patriarcalismo judaico adotado pelo cristianismo primitivo. Não é de surpreender que tenha sido no Egito onde se originou a adoração de Maria sob o título de te?t???? – “aquela que espera o filho de Deus”. Mais tarde, no Concílio de Éfeso (431 d.C.) esta designação egípcia foi convertida em dogma da Igreja. Como vemos foi no Egito, onde até a o início da era cristã Ísis (com o filho Hórus nos braços) fora adorada, onde se cristalizou o culto à Virgem Maria (com o menino Jesus nos braços). Ou melhor, onde a deusa Ísis se converteu na Virgem Maria. Parece então, que o destino de Ísis foi converter o cristianismo primitivo, descendente direto do judaísmo monoteísta patriarcal, numa religião sincrética.

É interessante destacar a semelhança entre as várias imagens onde Ísis aparece amamentando Hórus com as primeiras pinturas ou esculturas cristãs representando a Virgem Maria. Também a figura do Hórus criança possui um reflexo na iconografia do menino Jesus quando este aparece com o dedo levado à boca. Com a proibição do culto aos deuses pagãos houve uma gradual “transferência” dos atributos de Ísis para a Virgem Maria, associando-a, também, à fertilidade, à concepção sobrenatural, ao tratamento de doenças e à proteção das crianças. Muitos templos cristãos, dedicados ao culto da maternidade na figura de Maria e do menino Jesus, estão localizados em áreas, onde, no passado, se ergueram locais de culto a Ísis. O historiador Will Durant observou que “os primitivos cristãos por vezes fizeram os seus cultos diante de estátuas de Ísis amamentando o filho Hórus, vendo nelas uma outra forma do nobre e antigo mito pelo qual a mulher (isto é, o princípio feminino) é a criadora de todas as coisas, tornando-se por fim, a ‘mãe de Deus’”.



Referências bibliográficas:

· CASTEL, Elisa. Diccionario de la mitologia egípcia. Madrid: Aldebarán Ediciones, 1995.

· DURANT, Will. “Our Oriental Heritage”. In: The Story of Civilization: volume 1. Norwalk: Easton Press, 1992, p. 201.

· MELLA, Federico A. Arborio. O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus, 1998.

· SALES, José das Candeias. As Divindades Egípcias: uma chave para a compreensão do Egipto antigo. Lisboa: Editorial Estampa, 1999.