Paulo o apóstolo da mentira - Introdução

07/03/2017 17:35

Do estudo atento dos Atos dos Apóstolos, das Epístolas de Paulo, dos diversos apócrifos atribuídos a ele, assim como das Homilias Clementinas, de Antiguidades Judaicas e a Guerra dos Judeus, de Flavio Josefo, em resumo, de todos os textos antigos que nos chegaram sobre ele, chega-se finalmente uma conclusão, porém muito desconsoladora para os crentes, aos quais lhes apresento: é a de que o Paulo do Novo Testamento é um personagem simbólico no qual os escribas anônimos dos séculos IV e V fundiram e amalgamaram literalmente palavras e acontecimentos pertencentes pelo menos a três personagens diferentes, dois dos quais foram imaginados a seu desejo e só um deles foi real.

Na época em que por ordem de Constantino e sob a vigilância de altas autoridades da Igreja, como Eusébio da Cesareia, unificavam-se os textos evangélicos, que quando eram “conforme” se copiavam de novo em série de cinquenta exemplares e a seguir eram enviados a todas as igrejas do Império (sem omitir o confisco dos antigos textos aos que estes tinham substituído), literalmente se “criou” Cristo, deus encarnado para a salvação dos homens. Entretanto, para dar um valor inatacável a esta criação e poder justificá-la, não podiam utilizar «testemunhos apostólicos» habituais. De maneira que se fabricou um personagem novo mediante a fusão de três personagens antigos. Os textos e os documentos de que estes eram, indiscutivelmente, os autores, foram refundidos e recompostos. E como eram anteriores aos novos evangelhos “canônicos”, atribuíam a este personagem imaginário um reflexo de autenticidade histórica. Nessa época e ao longo de todos esses séculos, a mão de ferro dos poderes temporários sob as ordens da Igreja, “perinde ac cadáver”, achava-se sempre disposta a silenciar definitivamente a todo investigador mal pensante. Por isso é que monsenhor Ricciotti pode nos dizer, com toda lealdade, em seu Saint Paúl, apotre:


“As fontes que permitem reconstruir a vida de São Paulo se acham em sua integridade no Novo Testamento; fora deste não se encontra virtualmente nada. Os elementos que podem descobrir em alguns outros documentos não só são pouco numerosos, mas também, além disso, extremamente duvidosos.” (P. 90).

b) “O ano de nascimento de Paulo não se desprende de nenhum documento...” (P. 149).

c) “Quanto ao ano do martírio de Paulo, os testemunhos antigos são vagos e discordantes [...] Não se sabe nada a respeito do dia de sua morte...” (P. 671).

Também o abade Loisy, sem negar formalmente a existência histórica do personagem, concluiu que não pode saber-se nada válido sobre ele. Bruno Bauer e uma boa parte da escola exegética holandesa vão mais longe e concluem que se tratava de um personagem imaginário ou simbólico. Nós, por nossa parte, nos contentaremos ficando com o homem que nos apresenta o texto dos Atos dos Apóstolos e passá-lo pela peneira das verificações racionais, deixando às diversas igrejas a responsabilidade da impostura histórica, bem seja total ou parcial, se é que há.

OS TRÊS PAULOS:
O primeiro, formado pela cultura grega, vê Cristo como um ser divino, descido através dos "céus" intermediários adotando forma humana, morto na cruz, ressuscitado em espírito para assegurar a vitória do Espírito (pneuma) sobre a Matéria (hyiee) e assim assegurar aos homens sua liberação espiritual, longe da servidão dos "poderes" intermediários e inferiores. No segundo traduzem-se as tradições nazarenas e ebionitas; vê Jesus um homem de carne e osso, nascido de uma mulher da estirpe de David, submetido à Lei, morto na cruz, ressuscitado em carne, e logo deificado. O terceiro será um mago, e nos apresentam como Simão, o Mago. Temos aqui três personagens e três doutrinas absolutamente contraditórias. 

(Robert Ambelain em “O Homem que criou Jesus Cristo”)