Por que eu deveria acreditar na bíblia?

03/03/2017 13:46

Uma pergunta retórica para crentes e descrentes. 

Em resumo: aqueles que creem dirão que devo crer porque a bíblia é a verdade, a Palavra de Deus, o livro escrito por profetas inspirados por Deus. 
Aqueles que não creem dirão que não devo crer porque a bíblia é um livro falso, escrito por homens comuns com inspirações unicamente humanas e possíveis interess
es políticos.

Mas o que eu pretendo sugerir aqui é algo muito além desses conceitos simplórios e espontâneos dos quais estamos habituados.
Os cristãos dizem que devemos aceitar Jesus Cristo como o Senhor e Salvador de nossas vidas. Somente com a fé em Cristo é que seremos libertos do pecado e da condenação eterna. Mas primeiramente eu faço um questionamento: que pecado é esse afinal? O pecado original não pode ser, pois sabemos que a história do Gênesis não é verdadeira, Adão e Eva não foram os primeiros seres humanos do planeta, o Jardim do Éden nunca existiu. Nunca ocorreu um”dilúvio universal”, o personagem Noé é apenas uma variação de uma lenda muito antiga absolutamente inverossímil, a arqueologia tem realizado descobertas que provam que a história do povo hebreu não é aquela descrita nos livros do velho testamento. Dessa forma não existe “pecado original”, e isso por si só já anula a necessidade da intervenção divina na figura do Jesus bíblico.

O único motivo que elevou Jesus a condição de deus é sua ligação com o judaísmo, o cristianismo surgiu graças a dissidentes judeus, para crer em Jesus Cristo você tem que acreditar no deus do velho testamento, não tem como desassociar Jesus de Javé. Segundo a teologia cristã Javé e Jesus são na verdade a mesma pessoa!
Quando você começa a analisar dessa forma já se produzem algumas interrogações e as contradições são evidentes, se o velho testamento foi concedido através de mitos antigos então não podemos dar a ele nenhuma credibilidade no que se refere à inspiração divina.

Dessa maneira os cristãos intimamente reinventam um Jesus que na verdade não existiu comprovadamente. O velho testamento vira uma lembrança, um livro que não tem mais legitimidade, mas somente para aquilo que eles não concordam, o que pode ter alguma serventia como a lei do dízimo, por exemplo, continua válida e de forma totalmente deturpada.
O que a igreja católica apostólica romana fez foi modelar e manejar o novo testamento para separá-lo do judaísmo. Para isso eles criaram um novo Jesus, de um homem considerado pelos primeiros cristãos como um grande profeta ele se tornou o próprio deus encarnado, ao invés da figura de um rabino israelita lhe deram o aspecto de um deus greco-romano. Para divulgar essa mensagem, as “boas novas” de Jesus Cristo, nada melhor do que um apóstolo judeu, mas com cidadania romana (que coincidência) - Saulo de Tarso, também conhecido como o apóstolo Paulo. 

Todos sabem que o cristianismo só se expandiu pela Europa devido a intervenção de Paulo, chamado de apóstolo dos gentios. Em suas cartas Paulo não menciona absolutamente nada sobre a concepção miraculosa de Jesus, não dá nenhum detalhe sobre a crucificação de Cristo, não cita os milagres e exorcismos descritos nos evangelhos, o que é algo bem intrigante, diga-se de passagem.

Muitas correntes traçam um antagonismo entre o cristianismo de Jesus (dos evangelhos) e o cristianismo de Paulo professado em suas cartas. Se a história de Paulo é verdadeiramente o que consta na bíblia ele deveria ter conhecido Jesus pessoalmente, pois viveu na mesma época que ele, o apóstolo poderia ter esbarrado com Jesus em algum momento e deveria ao menos ter informações dos distúrbios causados no templo (Lucas 19:45-46, Mateus 21:12-13) por exemplo, mas curiosamente nada disso é mencionado nas epístolas paulinas. Será que o Jesus de Paulo não tinha nada em comum com o Jesus da “seita dos nazarenos”? Se analisarmos a bíblia de forma imparcial a conclusão é que Paulo, de fato, inventou uma crença se utilizando de um movimento que já possuía diversos seguidores combinando elementos do judaísmo com uma nova roupagem.
No livro de Atos capítulo 17 nos versículos 22 e 23 está escrito que Paulo esteve em Atenas, e segundo a bíblia:

“... estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos; porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.”

Deus desconhecido? Os gregos conheciam a cultura e a crença dos judeus. A partir do século III AEC, com a assimilação da língua e dos gêneros literários gregos, vários judeus tentaram explicar aos seus conterrâneos e aos gregos cultos a noção da religião judaica.
Se Jesus é realmente o deus do velho testamento Paulo não poderia dizer que ele era um deus desconhecido, deveria ter dito algo mais ou menos assim: “o deus de Israel, aquele que foi apresentado aos seus conterrâneos pelos judeus é o que vos anuncio”. 
Sendo assim Paulo (seja lá quem ele tenha sido) criou a religião que seria o alicerce da igreja católica apostólica romana que posteriormente se tornou a primeira igreja “oficial” de Jesus Cristo. O restante dessa história todo mundo já sabe: o imperador Constantino “se converteu” e para restabelecer a ordem no império romano oficializou o cristianismo agregando a ele diversos rituais e crenças de outras religiões.

A única opção que nos resta para “aceitarmos” Jesus é porque segundo a bíblia ele pregou o amor ao próximo. Mesmo havendo controvérsias nesse sentido vamos fazer um esforço e aceitar que ele realmente só ensinou o amor ao próximo e a abnegação humana, Jesus pregou a benevolência e por isso devemos segui-lo e acreditar em seus ensinamentos. Bem, ele não foi o primeiro, várias crenças muito anteriores ao cristianismo já pregavam o amor, a bondade, a abstenção do mal, um exemplo é o budismo, outro exemplo é o zoroastrismo. Se eu devo acreditar nesses ensinamentos de Jesus eu também devo aceitar as filosofias dessas crenças mencionadas, além é claro, de estimar outros pensadores da antiguidade dos quais nada tinham a ver com convicções religiosas. 
Portanto fica claro que o máximo que eu posso conceber é que a filosofia (teoricamente) ensinada por Jesus é correta, mas essa filosofia não nasceu dele, ele foi apenas mais um porta-voz dessa verdade universal: o amor ao próximo e a compreensão humana são os caminhos mais eficientes para obtermos a paz. Isso é natural, não preciso da bíblia para saber disso.
Segundo a bíblia Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14:6)” – mas que pai? Seria o deus do velho testamento? Se esse é o pai de Jesus então eu prefiro ficar bem longe dele! Por qual motivo eu iria querer me aproximar de um deus tão sádico, homicida, misógino, chantagista e estúpido? 
Para contornar essa situação embaraçosa a igreja preparou de antemão uma ferramenta que tem sido extremamente útil: a ameaça de um castigo eterno. Se você não aceitar Jesus você será condenado e sofrerá por toda eternidade (algo bem incoerente para um deus que é amor), dessa crença surge então uma espécie de cartada final dos crentes quando acabam os seus argumentos e justificativas: “deus vai te condenar”, “de deus não se zomba”, “a mão de deus vai pesar”etc.

A maioria das pessoas acabam aceitando Jesus não porque acreditam nele, mas sim pelo temor de uma punição infindável, medo esse causado pela ignorância religiosa. Lembrando que ignorância não é falta de inteligência, ignorância é o desinteresse voluntário pelo conhecimento.
Sendo a igreja católica uma poderosa instituição política não é difícil compreender porque inventaram os mitos do paraíso e do inferno. Se você obedecer às leis da igreja está fazendo a vontade de deus, o “ser supremo que criou todas as coisas”, e assim existirá para sempre no paraíso, mas se você se opuser as leis da igreja é um herege, sua alma está condenada a padecer infinitamente em um lugar aterrorizante. Uma grande jogada psicológica, nada mais eficiente que bombardear a mente humana com uma extorsão assustadora se valendo do grande mistério da incerteza pós-vida.
O cristianismo é tão confuso que existem milhares de vertentes dessa crença espalhadas pelo mundo, teólogos e apologistas cristãos freqüentemente entram em discordância sobre temas como a divindade de Jesus, a trindade e as ordenanças do velho testamento. Se não conseguem estabelecer um acordo entre eles mesmos como querem que os descrentes acreditem nessa religião?

Se existisse de fato um deus, um ser superior, criador de tudo, que possui os atributos de onipotência, onisciência e onipresença e esse ser deseja se comunicar com sua criação então por que ele não faz isso de forma objetiva e dentro da lógica e capacidade racional do ser humano? Essa pergunta só tem duas respostas:

1 – Esse conceito de deus usado nas religiões é totalmente falso, deus não existe, daí surge o ateísmo.
2- Esse conceito de deus usado nas religiões está inteiramente equivocado. É admissível que exista um ser superior e que ele tenha criado tudo que conhecemos, mas ele não pode (e nem deseja) ser compreendido pela mente humana, dessa maneira ele não intervém nas leis do universo e muito menos na vida dos seres vivos do planeta, daí surge o agnosticismo.

Para finalizar posso concluir que não existe nenhuma razão para eu acreditar na bíblia e nem receber Jesus como meu deus pessoal, eu poderia optar por qualquer outra divindade ou não optar por nenhuma delas já que isso não faz a menor diferença.
A religião é uma opção, uma escolha particular, valores morais e éticos não dependem da crença em um ser sobrenatural, valores morais e éticos dependem da educação e do caráter de cada um individualmente.

R.M. Elias – 21/02/2015